| Por Sw. Deva Prashanto
No anoitecer do dia doze de outubro de 1978 vi-me numa situação jamais imaginada: estou sentado no chão diante de um indiano barbudo vestindo um camisolão e sandálias de palha!
E o mais incrível: ainda-vou ser “iniciado” por ele!
Faziam 40 dias que havia chegado a Pune para assistir a um “counseling training”, algo parecido com um treinamento em aconselhamento (terapia).
Seu nome: Bhagwan Shree Rajneesh...que me olhou tranqüila e profundamente, dizendo:
- feche os olhos e ouça o canto do cuco...
Comecei a ouvir a ave...
...e só o seu canto ficou; e eu ali, só a ouvir...
...quase 1 ano depois, após muita meditação diária, treze grupos terapêuticos e 2 cursos de formação, eis-me sentado naquele terrível banquinho zen, praticando a técnica vipassana (observar a respiração). Foram dez dias, das 6 da manhã até as 21 h, alternando uma hora sentado e meia caminhando, sempre tentando manter a atenção na respiração e no caminhar!
No sétimo dia, depois de inúmeras tentativas frustradas de manter-me atento no sentir o toque do ar nas narinas,finalmente, algo me sussurrou: "a mente parou!”
Feliz, caminhei os 30 minutos...
Ao sentar novamente, ponderei: "quem falou??”
Tinha sido ela mesma...a mente!
Diante de tamanho engano, reuni minha atenção e olhei-a...
e a vi!
Pude observar o processo da mente: num plano, mais oculto, uma espécie de arquivo, onde estão armazenadas todas as palavras, conceitos, que aprendemos durante a vida usando nossos sentidos: pedra, água, raiva, maçã...resultado da extraordinária habilidade do cérebro de transformar o real, o concreto, no virtual, no conceitual, abstrato...simples nomes que possibilitaram um gigantesco salto na construção e transmissão da cultura. Noutro plano, a mente, que, usando certas regras criadas no processo de comunicar os movimentos da realidade (subjetiva, interna e a objetiva, externa), cria o pensamento, que nada mais é que a sucessão daqueles conceitos, palavras. Este processo é incessante por que a mente foi criada em estreita relação com o fluir
incessante da vida...ou seja, a linguagem com a sintaxe, etc.
A intenção da pratica da meditação é parar este fluir de pensamentos, mas o arquivo das palavras, que é uma função real do cérebro, como a memória das funções do metabolismo corporal, por exemplo, fica lá imóvel, disponível. Por exemplo: na realidade concreta, não existem os diferentes tempos dos verbos: eu ando, andaria...Só existe o “andando”, o gerúndio, pois a existência só “é”, no ”aqui-agora”, num fluir permanente. Assim, diz-se que não existe o “rio”, mas o “riando”,
palavra que tenta expressar o movimento da água como rio.
A mente é uma ficção criadora de ficções que só subsiste devido à nossa falta de atenção.Uma vez observada, desaparece.
Foi o que aconteceu naquele instante!
Sem a mente o ego ficou desmascarado!
É bom lembrar que W. Reich descobriu que o ego tem uma contrapartida corporal - ele se mantém e revela através de contrações musculares (couraça muscular do caráter). Estas tensões são mascaradas pela insensibilidade corporal mantida pela própria mente.Uma vez cessada a mente (como aconteceu naquele instante), senti-me no inferno: meu corpo parecia totalmente envolvido por uma espécie de tela de arame a 100° C! Doía tudo! Mexi um dedinho para
aliviar e a mente voltou e as dores desapareceram.
Assim, tive uma importante lição que desenvolvi nos meus trabalhos posteriores como terapeuta: a imobilidade total do corpo é indispensável para aquietar a mente. Decidi, então, abandonar a observação da respiração e passei a atenção para o ouvir.Ouvir um cuco que estava
nas proximidades! Coisa que osho havia me sugerido no momento em que recebi o sanias!...
Primeiro escolhi por qual ouvido ouviria, já que se utilizasse ambos seria difícil focar um único som. Escolhi o canto do cuco e fixei-me nele, tentando isolá-lo dos demais que me chegavam. Só o canto do cuco! Levei algumas horas tentando até ouvir unicamente o canto do cuco...isto foi tentado enquanto estava sentado e também caminhando.Quando consegui, passei para etapa seguinte: mantendo firme a atenção no canto do cuco, ampliei a área de atenção sonora, incorporando outros sons, pouco a pouco, lentamente.Quero dizer: minha atenção foi ficando cada vez mais abrangente. Houve momentos em que perdi todo o contato e tive que recomeçar...
Assim, pouco a pouco, fui percorrendo um circulo - sempre que eu conseguia fixar-me na atenção aos sons que chegavam dentro de uma área restrita (como um setor circular ou um funil.) eu ampliava. Até que fechei o circulo (melhor dizendo, um espaço como uma esfera e eu no centro). Neste instante comecei a ouvir tudo ao meu redor! Seria como ouvir uma sinfonia em sua totalidade complexa e, ao mesmo tempo, podia selecionar um instrumento e ouvi-lo também! A atenção era total!
Decidi então por minha atenção no tato enquanto caminhava –sentir o toque dos pés no chão ao mesmo tempo em que mantinha minha atenção total no ouvir.
Foi preciso uma atenção redobrada, pois corria o risco de dividi-la ao invés de ampliá-la.Ou seja, fazê-la funcionar como um ioiô, indo e vindo do ouvir para o tato! Ampliar significa ter a atenção total nos dois sentidos ao mesmo tempo!
Levei menos tempo que antes...
E consegui!
Finalmente decidi adicionar a visão.
Ouvir, ver e sentir meu corpo caminhando, tudo ao mesmo tempo!
Quando consegui, desapareci.
Não lembro o que aconteceu! Apenas que caminhei por uns trinta minutos, dando voltas.
E de repente, vi-me sentado novamente!
Pouco depois o grupo terminou.
No dia seguinte, de manhã, fui cedinho ao satsang. Sentei- me encostado num pilar e esperei osho chegar, de olhos fechados, porem ouvindo atentamente. Osho saia do “lao tsu house”, onde vivia, e vinha num carro até o “Buda hall”. Acompanhei tudo ouvindo. Apenas não o ouvi caminhando, pois andava como uma pluma...
Ele começou a falar, eu só ouvindo de olhos fechados.
Súbito percebi que não havia ninguém sentado naquela poltrona! Não havia ninguém lá! E logo o som de sua voz começou a mudar, como a reprodução muito lenta de um disco...
E veio a segunda extraordinária percepção: aquela voz vinha de muito longe, muito longe, de algo extremamente antigo e que aquele coro sentado na poltrona nada mais era que um alto-falante.
De repente tudo desapareceu, inclusive “eu”.
Guardei estas experiências por anos, sem comentar com ninguém, a não ser, claro!,Osho, a quem escrevi relatando-as.
Ele respondeu, por escrito, num papelzinho amarelo, mais ou menos assim: ”é por aí-”body meditation” (meditação corporal).”
Mais tarde li em um de seus livros (ou ouvi uma gravação, não importa)-comece observando o corpo, é mais fácil.O correto é o fácil e o fácil é o correto. Depois passe para a mente, o fluxo dos pensamentos e os intervalos de silencio entre as palavras. Finalmente, as emoções e os humores.
Li (ou ouvi) dele a seguinte historia: Um discípulo procurou correndo o seu mestre zen e arfando disse – mestre, mestre, descobri que se eu vejo minha mão, NÃO SOU MINHA MÃO!
O mestre disse também: é por aí. Continue observando.
Conclui: se eu observo algo, este algo deve estar separado do que está sendo observado. A mão não se pode observar, como o olho não se pode observar. Se eu observo o corpo, NÃO SOU O CORPO!
Então quem observa o corpo?
Conclui naquele momento, deve ser a mente.
Mais tarde consegui observar a mente como já relatei. E veio novamente a pergunta: se eu observo a mente, não sou a mente.Quem está observando a mente? Ela não pode se auto-observar, pois para se observar algo tem que haver uma distância.
Conclui: deve ser o cerebelo, sede das emoções mais primárias...
Mas um dia observei também as emoções...
!!!???
ENTAO o que sobrou?
NADA!
Quase pirei!
Pensava constantemente: se não sou o corpo, nem a mente, nem as emoções, QUEM ESTÁ OBSERANDO?
Comecei a ver olhos em todos os lugares...
E perguntava: quem é este “zoiudo” que vê tudo?
Osho já havia dado a resposta, mas como sempre a gente deixa passar até que uma vivência coloca a questão diante de você.
Disse osho: o observador não é o corpo (1), nem a mente (2) nem os humores-emoçoes (3). O real observador é o QUARTO, TURYA.
Bingo!
Por isso é que ele pode observar os outros três!
Na Índia, a consciência desperta ordinária é chamada o primeiro estado. O segundo estado é o do sonho. Sempre que você fecha seus olhos você está nele. À noite você está continuamente nele, quase continuamente. Se você se lembra, ou não, de seu sonho pela manhã, não é de muita importância, você continua sonhando(...)sonhando e sonhando. Este é o segundo estado de consciência. Ordinariamente, todos os desejos existem no segundo estado de consciência, o estado sonhando. Desejo é um sonho e trabalhar por um sonho é estar condenado desde o começo, porque um sonho nunca pode ficar real. Até mesmo se às vezes você sente que ficou quase real, nunca fica real - um sonho é, por natureza, vazio. Não tem nenhuma substância. O terceiro estado é o sono profundo, SUSHUPTI. Nele, todos os sonhos desaparecem – e também toda consciência.
Enquanto você está acordado há uma pequena consciência, muito pequena, mas quando você estiver sonhando, até mesmo aquela pequena consciência desaparece. Mas ainda há um iota de consciência - e é por isto que você pode se lembrar pela manhã que teve este ou aquele sonho. Mas em sono profundo, isto desaparece. É como se você desaparecesse completamente. Nada permanece. Um nada o cerca.
Esses são os três estados ordinários. O quarto estado é chamado TURIYA. O quarto simplesmente é chamado 'o quarto'. TURIYA quer dizer 'o quarto'. O quarto estado é o de um Buda. É quase como um sono sem sonhos, com uma diferença - esta diferença é muito grande. Tudo é tão calmo como num sono profundo, sem sonhos como num sono profundo, mas num estado absolutamente alerta, atento.
Em meados de 1979 voltei ao ocidente. Aquelas experiências ficaram depositadas no meu inconsciente, aguardando um momento oportuno para se atualizarem.
Em 1988 voltei a Pune. E logo enviei a Osho uma proposta, que já havia feito antes em 1979. Tratava-se da construção de uma “caixa de orgon”, dispositivo criado por W. Reich, de forma piramidal, revestida internamente por placas de cristal de quartzo. Naquela época Osho respondeu-me - “espere a nova comuna”. Estive três vezes na comuna do Oregon, mas não tive acesso a ele.
Minha proposta, bem detalhada, era autofinanciável, coisa que lhe agradou.
Então ele me enviou o seguinte recado: ”procure a Kaveesha”, que era a diretora da “Escola de Mistérios” da comuna. Ela era uma das discípulas muito próximas de Osho.
Encontrei-me com ela e subimos ao seu quarto. Pediu- me que sentasse e apanhou um pequeno “caco” de cristal e orgulhosamente disse-me: “presente do Mestre”.
Começou um ritual passando várias vezes o cristal à minha volta. Seu rosto ficou rubro.
Ao terminar, disse-me: ”você acaba de ser iniciado na Escola de Mistérios”.
Nunca mais tive contato com ela, que, pouco depois da morte de Osho, saiu da comuna e foi para os USA. Confesso que, naquele momento, não entendi nada daquele ritual, nem para que serviria.Só muitos anos depois entendi...
Entre 1971 e 1975 vivi no México. Entre outras atividades, abri um restaurante macrobiótico, dando cursos e consultas.Curei algumas pessoas. Assim, conheci uma sensitiva, Ruth, e ficamos amigos. Ela tinha premonições. Já no Brasil, na década de oitenta, enviei-lhe um presente através de um amigo. Mais tarde ele voltou com dois presentes dela: uma pequena pirâmide, azul claro (três cm de altura) e um ovo do mesmo material com uns cinco cm. E um recado escrito- “você sabe o que fazer com isto.”
Naquela época estava iniciando meus estudos e experimentos com cristais e com a caixa de orgon criada por W.Reich. Resolvi descobrir o “que eu sabia...” toda noite, antes de dormir, sentava-me à frente do ovo, mirando-o por um bom tempo. Até que um dia, lá pelas onze horas da noite, comecei a escrever e só parei à uma da manhã. Um texto, com desenhos e gráficos, sobre caixas de orgon em forma piramidal. Era assim (sem os desenhos): Sabe-se que todas as pirâmides do Egito têm dimensões especiais (relação largura da base e altura), de tal maneira que o ângulo entre as faces é sempre o mesmo. Fiz uma analogia com as lentes na ótica - dependendo da
curvatura das faces, ela pode ser convergente ou divergente; e a relação entre os raios das curvaturas das faces determina onde fica o ponto focal. Reich afirmou que o orgon atravessava grossas paredes, então supus que a forma piramidal poderia ser uma “lente” para o orgon, fazendo-o convergir para um ponto interno da pirâmide (naquelas dimensões especificas em
que foram construídas). Nas pirâmides há um espaço chamado “câmara do rei”, onde ficava o corpo dos faraós embalsamados. Para mim ali está o “ponto focal” da pirâmide. Onde se concentra o orgon. Conheci, nos anos oitenta, um medico em Belo Horizonte, que usava cristais lapidados na forma da “árvore da cabala”, que, segundo ele, evita a putrefação de matéria orgânica. Ele mesmo me contou que havia curado um câncer na mama de uma mulher que já apresentava sinais de putrefação. Ora, porque não supor que na “câmara do Rei”, ponto focal, os corpos dos faraós seriam melhor conservados?
Em meados da década de setenta fiz uma pequena réplica de uma caixa de orgon piramidal de tal maneira que pudesse conter aquela pirâmide de cristal que havia recebido de minha amiga Ruth. E comecei a fazer experiências, colocando-as sobre os chacras. Quando fui à Índia em 1978 levei-a comigo e enviei-a para Osho, como já expus antes. Por coincidência ou não, logo depois Osho pediu que se construíssem novos edifícios em forma de pirâmide.
Em 1988, voltei a Pune com um projeto mais completo. Osho aprovou-o e mandou-me falar com Kaveesha, diretora da Escola de Mistérios que me iniciou nela. O projeto de construção da pirâmide frustrou por motivos políticos, já que havia um outro projeto de caixa de orgon em forma ovóide; com algo a seu favor: ele era da “turma” e o dinheiro era pouco. Desisti.
A utilização, pela Kaveesha, do cristal dado por osho, no ritual de minha iniciação na Escola de Mistérios teve efeitos posteriores. Primeiro, confirmou que eu estava no caminho certo, estudando e aplicando-os em meu trabalho. Mais tarde, por algum tempo, Osho indicou Teertha para substituí-lo em alguns satsangs. E, certa vez ele veio com um cristal na mão e falou que não havia nenhum problema em usá-los, desde que o mestre fosse você. Ou seja, os cristais podem ajudar se não o colocarmos num papel predominante. Os cristais de quartzo pertencem à família dos silicatos (SiO2). São derivados do silício (Si) que pertence à família do carbono (C). Compõem 27,7% da crosta terrestre e 95% das rochas. O silício pode dar origem a algo parecido com a matéria viva originada do carbono (caso do silicone, que tem a textura da carne), mas ele não pode, nas condições do planeta Terra, dar origem à matéria viva. Mas, os cristais de quartzo estão bem próximos da matéria viva, apresentando algumas propriedades dela. Se reduzirmos um cristal a uma poeira finíssima e prepararmos uma solução aquosa, com o tempo e condições propícias ele volta à sua forma cristalina conhecida - esta é uma propriedade bem conhecida da matéria viva: a reprodução.
Existe um vírus, que ataca a folha do tabaco, que em uma solução torna-se cristal e depois volta ao estado “vivo”. Os cristais têm uma espécie de “memória”, podem ser programados (“chips”).
Por isto costumo dizer que os cristais de quartzo são, na natureza, a fronteira entre a vida animada (vegetais e animais) e a inanimada (minerais)( Osho disse uma vez que as pedras “são budas profundamente adormecidos”). Devido à simetria de sua rede molecular, os cristais de quartzo emitem uma energia harmonizadora e, por sua afinidade com a matéria viva, eles têm a tendência a harmonizar o campo energético dos seres vivos, que tem milhares de minúsculos cristais em seus corpos.
Osho repetidamente dizia que a existência é um grande mistério e que, enquanto ela não o desvelasse, nossas vidas seriam sem colorido, música e dança; sem êxtase. Mistérios que não poderiam ser entendidos intelectualmente, mas vividos. Para chegar a isto é necessário
silenciar a mente. E que a meditação é o instrumento para tal. Muitas estratégias foram criadas para que as técnicas meditativas surtissem aquele efeito.
Uma delas, muito antiga, é reunir um grupo de pessoas totalmente compromissadas com este propósito e que, juntas, iam buscando o silêncio. Da mesma forma que um grupo de pessoas tagarelas, intensamente intelectuais, cria uma áurea de blá blá blás, o grupo que, pouco a pouco, for criando o silêncio, será como uma amálgama que os unirá até o mistério. Como isto ocorre já é um mistério.
Nos últimos anos de sua estada aqui, Osho ensaiou a criação de uma “Escola de Mistérios”, e deu algumas dicas. Infelizmente não teve tempo de completar este importante trabalho. Osho disse que sua Escola de Mistérios tinha sete círculos: o mais externo era o dos curiosos e no mais interno
estavam o mestre e alguns poucos discípulos. Nas antigas Escolas, levava-se um bom tempo para ser admitido neste “círculo interno”. Lembro-me que, certa vez, Osho, de passagem, disse que certas coisas ele não poderia, ainda, revelar. Acho que a “realidade”, digamos, “nua e crua”, se revelada de sopetão, pode até pirar os não preparados (e, na verdade, tem muito maluco por ai que experimentou isto). Muitos séculos se passaram desde o fechamento das antigas Escolas de Mistérios e, no intermédio, apareceu o cristianismo, que eliminou qualquer tentativa de organização de uma. Por isto, modernamente não temos nenhuma tradição. Aqui no Brasil nem se fala... No meio sânias, devido ao aparente descompromisso que Osho permitiu aos seus discípulos, quase nada pode ser feito, pois persiste a atitude de que "só faço o que eu tiver afim". Assim, estrutura-se, por exemplo, um trabalho de cinco módulos. No primeiro vem 40 pessoas; no segundo 30, no terceiro 20, mas destes 20, uns 5 são aqueles que faltaram no segundo... não pode haver continuidade. Qualquer atividade “legal” é motivo para faltar ao trabalho - uma viagem, festinha, praia...
A Escola de Mistérios que estamos estruturando tem como pedra fundamental o total compromisso.
Não se pode faltar sem um motivo forte, caso contrário, a pessoa é excluída. Uma vez fechado o grupo, ninguém mais é aceito, pelo menos nos dois primeiros anos de funcionamento. Atualmente existem escolas no Rio-Juiz de Fora, Brasilia-Alto Paraíso,Vitória, SP e Fortaleza, totalizando 120
participantes, sendo que as de SP,Vitória e Rio-JF estão entrando no quinto ano de existência.
Este é o paradoxo do Caminhante: não há um Caminho nem Meta. Ir para onde? O que se está buscando? Não pode haver Busca, pois não se sabe, precisamente o que se está
buscando. No momento em que se souber a Busca acaba!
Não havendo busca não há buscador...
O que resta então?
O Caminhar.
E que trilha seguir?
Como, no inicio, vamos movidos pelo desejo de encontrar algo (você mesmo? Mas quem é você?), recorremos à mente, pois somente ela pode criar a ilusão de que há uma meta e um caminho.Sabendo disto, os diferentes Mestres, que também, no inicio, caíram neste paradoxo, mas saíram, criaram seus mapas. Aí temos os mapas sufi, hindu, cristão etc.Os únicos que não criaram foram os taoistas (que influenciaram o Zen), que, justamente, afirmaram que não há caminho ou só há o “caminho não-caminho”, a “porta não-porta”. É preciso entender acuradamente este paradoxo (e, é claro, que uma mente lógica tem dificuldades nisto...) - se deixarmos a mente criar seus próprios mapas a perdição é certa, pois ela só pode atuar com objetivos, metas. Digamos assim: o “mapa” que os Mestres sugerem aos seus discípulos é como aquelas mensagens em filmes de ficção
cientifica: à medida que se vai lendo ela vai se auto destruindo.. à medida que a mente se esforça no “trajeto”, ela vai se queimando. O discípulo dissolvendo, o mapa descolorando, a meta desaparecendo...até que o discípulo transforma-se no Devoto e, como diz Osho, “a meditação transforma-se em Prece!”. Prece significa total gratidão pela existência! Pura Celebração!
Não há mais perguntas, inquirições, duvidas - só o Agradecer, o Celebrar! Vida, Amor e Riso...
A partir deste instante, o caminho e a meta transformam-se no Caminhar. Simplesmente caminhar...Wei wu wei...”Ação pela não ação”. Ação sem causa e sem objetivo!
Ou seja, viver no aqui-agora.
O Devoto não tem mapas nem metas.Seu coração vai aprendendo a ler os “sinais” que a Existência, a todo instante, mostra, nas nuvens, nas pedras, nas folhas caindo, no canto de um pássaro...
O paradoxo se desfez! Não há mais contradições - tudo se encaixa harmonicamente!
A percepção de que a Escola de mistérios existe dentro de um campo mórfico, abriu- me uma nova visão. Vamos explicar a seguir, pouco a pouco, esta teoria de Ruppert Sheldrake. Tudo começou assim: O macaco japonês Macaca fuscata foi observado “in natura” durante um período de 30 anos. Em 1952, na ilha de Koshima, os cientistas davam aos macacos batatas doces jogadas no chão. Os macacos gostavam do sabor ,mas não da areia. Uma fêmea com 18 meses de idade, chamada Imo, descobriu que podia resolver esse problema lavando as batatas num riacho próximo. Ela ensinou o truque à sua mãe e seus companheiros de brincadeira também aprenderam e
ensinaram às suas mães. Essa inovação cultural foi gradualmente sendo usada por vários macacos diante dos olhos dos cientistas. Entre 1952 e 1958 todos os macacos jovens aprenderam a lavar as batatas doces para torna-las mais saborosas. Só os adultos que imitavam seus filhos aprenderam esse avanço social.os outros adultos continuaram comendo batatas sujas. Então algo começou a acontecer. No outono de 1958 ,um certo número de macacos de koshima estavam lavando suas
batatas -o numero exato não se sabe. Suponhamos que quando o sol nasceu havia 99 macacos da ilha koshima que haviam aprendido a lavar suas batatas doces. Suponhamos que, neste dia,um centésimo macaco aprendeu o mesmo. Então aconteceu! À tarde, quase todos da tribo estavam lavando as batatas antes de come-las. Porém, algo surpreendeu os cientistas: este hábito atravessou o mar e alguns macacos das colônias de outras ilhas,e todos da ilha Takasakiyama, começaram a lavar suas batatas doces! Então, quando um número crítico atinge um conhecimento, este novo conhecimento pode ser comunicado de mente para mente.
Apesar de que esse número crítico varia, o fenômeno chamado “centésimo macaco” significa que quando um determinado número de pessoas conhece um novo caminho, ele fica à disposição apenas deste grupo. Mas há um ponto no qual se mais uma pessoa entra em sintonia com este novo conhecimento, um campo é gerado de tal modo que este conhecimento é apropriado por quase todos!
Experimento 1- nos anos 20, o psicólogo William Mc Dougal ,da universidade de Harvard, realizou experiências durante 15 anos ensinando ratos a sair de uma caixa. A primeira geração cometeu uma média de 200 erros antes de aprender a sair. A última geração cometeu 20 erros. Para Mc Dougal, este conhecimento poderia ter sido herdado.
Experimento 2- mais tarde, numa repetição das experiências de Mc Dougal na Austrália, ratos da mesma espécie cometeram poucos erros desde o começo. Gerações posteriores fizeram melhor mesmo quando não eram descendentes dos primeiros ratos, logo, não era genético!
Experimento 3 - nos anos 20, em Southampton, Inglaterra, um pássaro de uma espécie chamada “blue tit” descobriu que podia furar as tampas das garrafas de leite postas nas soleiras das portas e beber o leite. Logo este ardil começou a ser praticado por “blue tits” a mais de 150 km de distância, o que é estranho, pois estes pássaros não voam mais de 30 km. Observadores seguiram os traços da expansão desse hábito. Ele se espalhou rapidamente até que era geral em toda a Inglaterra. Num desenvolvimento paralelo, esse hábito espalhou-se para os “blue tits” da
Holanda, Suécia e Dinamarca. Com a ocupação alemã, a distribuição de leite foi suspensa durante oito anos - cinco anos a mais que a duração da vida dos “blue tits”! Então,em 1948, o leite voltou a ser entregue. Em poucos meses, todos os “blue tits” da Holanda começaram a beber o leite, um hábito que levou décadas para se espalhar antes da guerra.Como eles aprenderam este conhecimento?
“A maioria dos biólogos aceita como verdade absoluta que os organismos vivos são apenas complexas máquinas, governadas somente pelas leis da física e química. Eu mesmo compartilhei deste ponto de vista por muitos anos, mas depois de algum tempo, comecei a ver que isto é difícil de justificar. Pelo pouco que conhecemos, existe uma possibilidade aberta de que, pelo menos alguns fenômenos da vida dependem de leis ou fatores ainda não conhecidos pelas ciências físicas”.
Com essas palavras Rupert Sheldrake começa o seu livro “a new science of life:the hypothesis of formative causation”, publicado em 1981.Este livro causou tanto espanto que a revista “nature” escreveu que o livro “é o melhor candidato a ser queimado nos últimos anos." Sheldrake desenvolveu suas idéias nos livros “The presence of the past: morphic resonance and habits of nature (1988)" e “the rebirth of nature: the greening of science and god”. Estes livros foram traduzidos para o português. Rupert Sheldrake tem PhD em bioquímica e foi diretor de estudos em bioquímica e biologia celular no “Clare College”,Cambridge, Inglaterra. Sheldrake descobriu que, por volta de 1920 ,3 biólogos - Hans Spemann, Alexandre Gurwitsh e Paul
Weiss - independentemente um do outro -, propuseram que a morfogênese é organizada em campos ( “morfogenese” significa “aquilo que dá a forma”). Este conceito ficou obscuro até que sheldrake o utilizou em sua teoria . A idéia de “campo” foi utilizada por Einstein, que incluiu o “campo gravitacional” como o que mantém todo o universo junto. Como os organismos complexos surgem a partir de estruturas tão simples como as sementes ou ovos? Como umacastanha do pará se transforma numa árvore, ou um óvulo humano fertilizado num adulto? A partir do conceito de “campo morfogenetico”, Sheldrake desenvolveu as noções de “campo mórfico”, ”unidades
mórficas “e “ ressonância mórfica”, para explicar alguns dos fenômenos que coloquei aqui antes.
Agora vamos tentar resumir os principais conceitos da teoria de Sheldrake.`Para mim é a mais importante tentativa de explicar o fenômeno da vida de forma científica (ou seja ,à maneira ocidental, já que no oriente antigo esta visão já era aceita - claro que com outra terminologia) .
Unidade mórfica -a unidade da forma ou da organização, como o átomo, molécula, cristal, célula, animal, padrão do comportamento instintivo, grupo social, elemento da cultura, ecossistema ,sistema planetário ou uma galáxia. As unidades mórficas estão organizadas em hierarquias sobrepostas, umas dentro das outras:o cristal,por exemplo,contém moléculas, que contém átomos, que contém elétrons e núcleos, que contém partículas nucleares, que contém quarks.etc., até ,digo eu, o nada, que contêm tudo...é bom recordar que estamos falando de campos.
Campo mórfico - é um campo dentro e em volta de uma unidade mórfica que organiza sua estrutura característica p - padrão de atividade. O conceito de campo mórfico inclui os campos morfogenético, comportamental, social,cultural e mental.
Ressonância mórfica - a influência das prévias estruturas de atividade nas atividades atuais organizadas pelas unidades mórficas. Pode- se chamar de “memória”, porque tudo o que foi “aprendido” fica armazenado no campo mórfico em questão, independentemente do tempo e do espaço. Ou seja ,os campos mórficos tem propriedades holísticas. Por exemplo-suponhamos que num laboratório seja criado um novo tipo de cristal. Como é novo, não tem ainda um
campo mórfico, por isto, como é fácil de constatar na pratica, a formação do cristal é demorada. Uma vez formado este novo campo mórfico, quando se quiser formar outro cristal idêntico levará menos tempo porque a “ressonância mórfica” ensinará como é cristalizar este tipo de cristal
A teoria de sheldrake tem implicações incríveis.Dois psicólogos brasileiros ,Esther frankel e Milton Corrêa,e nviaram ao 7º congresso da associação européia de psicoterapia corporal, realiada em Kurthaus travemünde, Alemanha, em setembro de 1999, um comunicado intitulado “campos de intencionalidade: da história familiar à organização psicosomatica individual”, no qual são citadas
a “ordem implícita” e “os campos mórficos da intencionalidade”. Eles abordam os campos mórficos familiares referentes ao corpo e com sua linguagem específica afirmam: “estes campos motores (uma espécie de campos mórficos) constituem nosso vocabulário básico como primatas.” Depois entram na terapia desenvolvida por Bert Hellinger,tão em voga agora (constelação familiar), sob o mesmo prisma :o campo mórfico familiar que se organiza em cada indivíduo da família.
Vamos explicar melhor isto. Um indivíduo é uma “ unidade mórfica”. Esta unidade mórfica inclui uma multidão de unidades mórficas: no plano biológico,no plano mental, emocional, comportamental etc. No plano biológico, segundo a teoria de sheldrake, ele recebeu informações de como o corpo se formaria não somente através do DNA , mas, principalmente, da “memória” dos campos morfogeneticos humanos (ressonância mórfica), memória que vem se formando há bilhões de anos através de convergências de bilhões de campos morfogeneticos individuais até chegar a este indivíduo particular. Seu campo morfogenético está em sintonia com o campo da
família e vice-versa. Suponhamos que na sua vigésima geração anterior, alguém contraiu, pela primeira vez, uma doença (pode ser física ,mental etc) e que em outras partes do planeta, na mesma época,outras pessoas também tiveram esta doença. Cada uma destas pessoas incluiu em seu campo morfogenetico algo desta doença, mas este é fraco ainda.
Suponhamos que algumas destas pessoas casam-se entre si, reforçando o campo mórfico da doença nesta linhagem, e assim por diante, até que no campo mórfico destas linhagens aconteça o fenômeno do “centésimo macaco”-agora todas as pessoas sob influência deste campo morfogenetico serão acometidas por esta doença. Vamos mais adiante:se um número apreciável de seres humanos ,através dos tempos, tem câncer até chegar à uma massa crítica (o centésimo macaco), a partir daí o câncer começa a fazer parte integrante do campo morfogenetico humano e o câncer começará a aparecer em número cada vez maior desde cedo. Então vimos que: no plano cósmico,s egundo David bohm, existe algo que ele chamou de “holomovimento” ,que está em constante processo de criatividade e tem propriedades holográficas ,ou seja, qualquer partícula contêm o todo. Este holomovimento manifesta-se em dois níveis: a “ordem implícita”, invisível e a “ordem explícita”. Este holomovimento foi chamado também de “o jogador”, que é uma proto-inteligencia, consciente.
Com James havelock, chegamos à Terra. Ele criou a “hipótese Gaia”. Gaia era o nome com que os antigos gregos chamavam a Terra. Para eles, Gaia é a responsável pela vida neste planeta e vem ,há cerca de 4 bilhões de anos, cuidando para que todos os parâmetros que possibilitem a vida aqui não se alterem. É claro que, pelo que explicamos acima,Gaia faz parte deste “holomovimento”, é inteligente e criou um seu sistema de auto-equilíbrio (uma espécie de sistema imunológico planetário). Por isto, Havelock disse que a deusa Gaia era bondosa, nutriz, como toda mãe, mas que era impiedosamente cruel com aqueles que ameaçavam aquele equilibrio . Finalmente, com Sheldrake, vimos que existe o “campo morfogentico”, que funciona como memória da vida e que é o responsável pelo processo que dá as formas a tudo que cresce aqui. Este campo utiliza , para isto, o fenômeno da “ressonância mórfica”, que busca no passado as diretivas que irão construir as formas especificas. Por sendo parte do “holomovimento”, estes campos estão sempre em processo de crescimento e transformação.
Agora sim posso tentar explicar o que penso do AIDS.
A ciência oficial teve que recorrer a um malabarismo intelectual ao supor que o HIV é uma mutação do SIV, ou seja, um vírus que dá em macacos e que passou para os humanos!
Vamos ver melhor o que seja um vírus. Vou citar o próprio Lavelock: “VÍRUS-é o menor ser vivo, cujo diâmetro mede a quinta parte de um “micra”.
Mas e os vírus ainda menores? Nãoestão vivos?
Talvez, mas prefiro pensar que eles são como peças de um “software” da vida. São somente um conjunto de instruções inscritas num código genético comum e envoltas num pacote de proteínas. Equivalem a discos com uma mensagem codificada: nem o disco nem o vírus estão vivos. O disco necessita um computador para expresar-se; o vírus, de uma célula viva. A mensagem “viral” entra na célula e controla suas funções, conseguindo que siga sua instruções. Os vírus sempre incorporam a mensagem: ”depois de fazer isto, faça uma cópia de todas as instruções e passe-a para as outra células “, ou seja, esses vírus são minúsculos programas e, como todo programa, pode ser alterado pelo programador.
Quem é o programador?
GAIA!
Gaia está sendo ameaçada por uma espécie viva que está alterando cada vez mais as condições necessárias à vida aqui - o animal humano!
Então o seu sistema imunológico vai criar anti-corpos para eliminar esta ameaça.
Como?
Utilizando algo que já esta dentro do animal humano e que sempre foi inofensivo-aqueles vírus
–softwares. Basta, com seu poder de criar a vida, mudar o programa desses vírus-softwares, colocando umas mensagens novas de forma a transforma-los em algo mortífero. Ou seja ,um vírus inofensivo ,que sempre esteve em nos até agora; tornou-se mortal! Não precisa inoculação!
Voltando a citar o cientista Claude Bernard: ”o meio é tudo”.
Gaia não iria se manifestar contra todos os seres humanos, não, seria compassivo. Então, em quem se processaria a mutação do vírus? Naqueles que estão em desarmonia com a vida ,cujo meio interno está em desequilíbrio com as leis da vida. Para mim o chamado HIV é uma mutação de algo que já existe dentro de nós. Se pode ser transmitido ou não, pouco importa.
E só há uma maneira de ficar imune - voltar a ser natural.
E tem mais: quanto mais gente vai ficando com o AIDS, poderemos chegar à “massa critica” e, então, fará parte do campo morfogenético humano e será o “armagedom”. Perguntaram a Osho “o que fazer para ser natural?”. Respondeu: -“não se pode fazer nada para ser natural, pois ser natural é natural... porém, fique atento com os truques que usa para não ser natural...”
No dicionário Aurélio está:
“Natural”.
Aquilo que é conforme a natureza.
Tendência natural; índole, caráter
A realidade; o original.” (grifo meu)
O que é “natural” em nós? O mais original? O animal!
Muita gente esqueceu que somos animais, originalmente.
O animal é inocente, por isto segue passivamente as leis da Vida.O animal humano pode ir além da animalidade, mas isto só pode acontecer se respeitar sua “realidade” animal. Citando ainda Osho: ”o ser humano é uma ponte entre o animal e o divino, um projeto, uma passagem, mas está,
ainda, parado no meio da ponte rejeitando a sua herança animal que ele ainda é. E identificando- se com o divino que ele ainda não é”. E o que, em nós, está mais próximo da natureza, do animal?
O sexo! E o animal humano, que aprendeu a domesticar (“educar”) alguns animais, também faz isto consigo mesmo...Isto se chama “processo civilizatório” .Claro que para viver em sociedade a cria humana tem que aprender certas regras.Em todos os grupos animais sociais isso acontece.Mas no animal humano isto da-se de uma forma terrível, através da repressão da energia básica da vida: o sexo. W.Reich, ao analisar isso, se perguntou porque o animal humano escolheu esse caminho.
E, perturbando a energia básica de seu sistema, o animal humano foi, pouco a pouco, deixando de ser natural, tornando-se hipócrita, mentiroso, perverso, político etc.
Foi quando li o estudo “a linguagem do vivo”, no livro “analise do caráter” de W. Reich, que comecei a me interessar pelos “gestos” dos animais em grupos - seus rituais. Pensei: ”até que ponto esses rituais ancestrais estão na vida diária do ser humano?”. Tempos depois criei o trabalho “rictus animalis”, onde procuramos resgatar os rituais animais no ser humano em algumas atividades sociais - relações de liderança, no ato de comer, de caçar, em grupos familiares, alem de
testar o uso dos sentidos...
Foram três em Alto Paraíso, Goiás, perto de Brasília. Ficamos isolados de todo contato urbano por quinze dias, dormindo em tendas, sem banheiro, chuveiro etc. À noite, sentávamos em frente a uma fogueira, sob o maravilhoso espetáculo de uma parte da Via Látea, em silencio, trocando experiências ou “dialogando” com o fogaréu. Pouco a pouco pudemos observar o poder do que Sheldrake chamaria de “ressonância mórfica” - o agudizar dos sentidos, a aparição de algumas “respostas animais” a situações longe da civilização...
Neste experimento tentamos, de modo incompleto, colocar o animal humano moderno (“nós”) em situações parecidas com os primatas (claro que foi um arremedo já que isto é impossível atualmente, mas me deu uns vislumbres). Terapeuticamente os resultados foram significativos. Muitos comportamentos “neuróticos” baseados na cultura repressiva amenizaram ou desapareceram.
Mais tarde realizamos um único trabalho na Terra Ronca, Goiás, limite com a Bahia. Ainda mais isolado.Um complexo sistema de cavernas horizontais, cavadas por um rio que ainda flui, calmo e simples, por dentro da montanha, criando um pequeno lago a uns vinte metros abaixo da superfície do solo.Chamou- se “Rictus Animalibus” e seu propósito era recontactar as experiências do animal humano com os primeiros vislumbres de consciência, com seus rituais tipicamente humanos que, na minha opinião, deram origem aos rituais religiosos, aquilo que os antropólogos chamam curiosamente de “religião anímica”, pois ela considera tudo com Alma (ou consciência). Foi uma das experiências mais potentes que já experiênciei no que se refere ao contato com a “profundidade”, não somente no interior das cavernas, à beira do lago, mas dentro de mim mesmo. Duas profundidades inter-relacionadas! Neste experimento criei (rememorei?) alguns rituais simples, porem intensamente mobilizadores: usando cristais,”dialogando” com as pedras, arvores e a água...Criando um “campo” onde nos reuníamos, apoiado energeticamente em algumas arvores próximas.Não penetramos logo nas cavernas. Fomos nos aproximando respeitosamente dela e, após três dias, fizemos a meditação nadabrama dentro dela. Depois, numa caverna escura praticamos a meditação essênia da escuridão. Finalmente, lá no fundo, na mais completa escuridão, apenas com a luz de umas poucas velas realizamos vários renascimentos que terminavam dentro do lago, na mais completa escuridão!Nunca participei de nada igual.
Naquela época não conhecia as teorias de Sheldrake. Mas minha intuição dizia-me o que fazer. Criei uma serie de rituais simples para acionar a “memória ancestral”. Tais como: escolher uma arvore e, todo final de tarde, passar um tempo com ela; o cristal era colocado nesta arvore durante toda à noite. Em Terra Ronca, antes do renascimento no “útero” da terra (um pequeno lago subterrâneo com uma estreita saída), era realizada uma cerimônia nas margens do riacho - o que iria “renascer” havia colhido algo de sua arvore e ia até o riacho oferecia-a pedindo permissão para usar suas águas no ritual dentro do “útero”. Cada um tinha quatro pessoas escolhidas por ele para dar-lhe suporte durante o renascimento. Lá dentro eu atuava como “renascedor”, enquanto Nadeesh ficava dentro do lago com uma pequena lanterna. Quando eu sentia que a pessoa estava “pronta”, eu sinalizava para os quatro colaboradores que estavam ao redor do que iarenascer e eles, rapidamente, carregavam-no até Nadeesh que o embalava...E quando eu assinalava (apagando todas as velas), Nadeesh apagava sua lanterna e dava um “caldo” (mergulho rápido) na pessoa. Quando ela voltava estava tudo imerso na mais completa escuridão! De arrebentar!
No final, após uma serie de renascimentos, ficamos sentados na pequena praia em silencio. De repente ouvi uma serie de rugidos. Pensei “deve ser o eco das águas nas paredes da caverna”, mas como eu (.igual a todos) estava num diferente plano de percepção, pensei logo a seguir: “deve ser o guardião daqui que está furioso por termos entrado sem pedir sua permissão”. Então fiz uma prece (a primeira em toda minha vida...) pedindo aquela permissão...
E logo os rugidos transformaram- se num cântico de coral de vozes femininas! Entrei em gozo...
Mais tarde conversei com Nadeesh sobre essa experiência e ele me disse que também ouviu o coral. Outras pessoas também...
Osho disse que, de todos os “mapas” (cristão, judeu, zen, sufi etc) ele preferia o hindu, pois com os chacras vc sempre poderia saber onde estava na sua caminhada. Aprendi muito sobre a Vida e suas complexas inter-relações através do foco dos chacras. Vou colocar algo deste vasto tema aqui.
O primeiro chacra, que está na base da coluna relaciona-se com a sobrevivência, tanto da espécie (sexo), quanto individual (comer e não ser comido.). Abaixo dele, distribuindo- se pelas pernas até o pé, existem outros pequenos, porem poderosos, chacras. Este chacra no animal humano é o seu primeiro, mas nos outros animais é o ultimo. Isto quer dizer que o “destino” dos outros animais, o mais sofisticado, é sobreviver.No animal humano é, apenas, o inicio de uma longa caminhada evolutiva. Em torno da sobrevivência circulam diferentes possibilidades: raiva, medo e todas as emoções conectadas com os cérebros límbico e reptilico e as fomes sexual e de comida nutritiva para as diferentes funções corporais.
Se este chacra não funciona bem individualmente e está em desarmonia com os demais chacras superiores, surgem manifestaçoes que chamo de “desarmônicas”. Aqui é importante assinalar que a Vida é uma complexa rede de inter-relações. É um erro analisar o funcionamento de um chacra sem vê-lo nas suas relações com os demais chacras. E existem dois tipos de relações: com o seu parceiro e com o sistema total.
O quarto e o terceiro chacras são parceiros. O elemento do terceiro é o Fogo. Simbolicamente representa o Poder: da transmutação, o poder do Guerreiro de que tanto fala don Juan, personagem de Castañeda, o bruxo xamanico, e também o Mago. É bom lembrar que na mitologia grega Prometeu deu o Fogo para o animal humano que, com este Poder começou a se libertar do mundo natural criando o seu próprio mundo –o da Cultura. Por este “crime” Prometeu foi duramente castigado pelos deuses (eles “sabiam” que a partir daí o animal humano iria rivalizar e “destronar” os deuses do Olimpo...). Na minha experiência de muitos anos como terapeuta cheguei à conclusão que o método de submissão que a sociedade realiza com o animal humano desde o berço, é retirar, no limite aceitável para sobreviver, o poder de cada criança. O chamado “processo educativo” nada mais é que uma intensa, dramática luta entre dois poderes: o da criança e os adultos. Sempre os adultos vencem e perdemos nosso Poder original! Já adultos (mas não “maduros”) somos, na maioria dos casos, obedientes à regras absurdas que, em geral, são contra as “leis da vida”. Veremos, mais tarde,como é possível “educar” (melhor dizer “cuidar”) sem destruir o Poder nas crianças. O nosso guerreiro não tem forças para lutar e o nosso mago não tem poder para nos transformar. Descobri que, então, deveria ativar o Fogo do terceiro chacra para restaurar a dignidade de Ser Humano (para mim foi constritador verificar que a maioria das pessoas não sabe sequer o que é “ter a dignidade de Ser Humano”)
O terceiro chacra é masculino e o quarto feminino.
O feminino, como já disse aqui, alimenta energeticamente o masculino.
O elemento do quarto chacra é o Ar, a Emoção (e-moção - ato ou efeito de mover (-se); movimento).Ele é a sede da mais sofisticada emoção que o animal humano pode experimentar: o Amor. Na realidade, enquanto o animal humano não se instalar ai, não pode reivindicar o titulo de Ser Humano, será apenas um animal humano...
Instalando-se ai superamos o animal e começamos a conhecer o Buda. O processo evolutivo da vida aqui deu mais um salto de qualidade. O corpo continua como animal em algumas de suas necessidades básicas (comer, dormir, respirar...). Para se recuperar o Poder, ativando o terceiro chacra, tem-se dois caminhos - o que se “alimenta” nos chacras abaixo do terceiro (o complexo sobrevivência x sentidos), ou a partir do quarto chacra –o Amor. Se a pessoa ainda vive sob o domínio da sobrevivência, o poder que desenvolverá será em função disto. O mais interessante é que se esta pessoa se sentir ameaçada na sua sobrevivência tratará de dominar tudo para não
sucumbir. É o poder pelo poder. Ela poderá desenvolver uma serie de poderes derivados do segundo chacra para submeter os demais e assim não se sentir ameaçado. O poder derivado deste “fogaréu” pode ser muito destrutivo se ele busca combustível abaixo. Claro que o fogo necessita do ar para crescer, mas seu crescimento deve vir de cima para baixo. Entre o terceiro chacra e o quarto há uma espécie de “filtro” que controla a labareda do poder. Este filtro é acionado
a partir do quarto chacra, mas só pode sê-lo se a pessoa já estiver lá! Caso contrario o fogaréu “queima” o filtro e a capacidade de amar é destruída.
Para entender melhor isto, devemos ver as parcerias como unidades complexas. Os sentidos (segundo chacra) e a sobrevivência (primeiro) interagindo, ajudando-se mutuamente ou prejudicando- se. No complexo ar x fogo, poder x emoção, o fogo deve emitir calidez. (no sentido de ardente, apaixonado) para apenas aquecer o ar afim de que ele circule e, suavemente, sopre o fogo que cresce mais um pouco, subindo etc. Desta forma o poder é ativado a partir de emoções suaves, porém profundas, até que se atinge um ponto de mutação - o Amor. E quando o Poder é o do Amor não há nada a temer.
Em 1988 voltei a Pune para reencontrar o Mestre. Neste mesmo ano ele começou a falar sobre a importância da hipnose, afirmando que ela sempre foi utilizada pelos Mestres, citando até Gautama ,o Buda. Deu varias dicas de como ,através dela, acessar o inconsciente. Seu método era o antigo: fazer a pessoa fixar o olhar num ponto luminoso ,sem fechar os olhos, e induzindo a pessoa a dormir de olhos abertos - “suas pálpebras estão cada vez mais pesadas etc...”.
Ensinou que na primeira fase acessava-se o inconsciente de maneira inconsciente. Penetrava-se na escuridão e,assim,não se poderia “ver” nada. Muito perigoso! Depois dever-se-ia aprender a penetrar no inconsciente de maneira consciente. Isto seria induzido. Daí para frente o nível de consciência deveria aumentar, pois ,à medida que penetramos nos diferentes níveis do
inconsciente, mais distantes se está do nosso nível de consciência comum. As barreiras são cada vez mais difíceis de passar e mais perigosas! Decidi “montar” duas induções :a primeira e a segunda etapas. Escrevi os textos que serviriam para induzir o “sono hipnótico” e, ao voltar para o Brasil,em
Brasília gravei-os no estúdio de Rupantarar (que agora faz parte da Escola do Planalto) duas programações. Parei por ai , pois logo vi que o buraco era mais embaixo...E tenho como norma nunca me arriscar a ser um “aprendiz de feiticeiro”.. .Não sei por onde andam as gravações,apenas que Rassili (terapeuta sanias) tem uma copia. Mais tarde Osho criou ,com a ajuda de Madita,uma meditação induzida que usa a PNL (Programação Neuro-Linguistica, ) que fiz algumas vezes. Mais tarde fiz cursos em Pune de PNL com Madita e outros terapeutas. Aqui no Brasil
apliquei-a muitas vezes.
Um santo sufi vivia há tempos no alto de uma montanha onde orava varias vezes no dia.
Certa vez, no meio da noite, foi acordado por um anjo que lhe disse em tom de urgência: ”levanta já! Assim que o sol nascer vira um enviado de satã e vai por um veneno na única represa de ahua potável da cidade; quem bebê-la ficará completamente insano. Vai e junta a maior quantidade que puder”. Assim fez, e durante toda a noite acumulou a maior quantidade possível de água pura que pode. Assim que o primeiro clarão de sol apareceu o mensageiro de satã envenenou as águas da represa. À medida que os habitantes da cidade iam acordando e ingeriam a água ficavam doidos.
Antes do meio –dia todos os habitantes estavam malucos, menos o santo. Com o correr dos dias alguns começaram a observar o santo quando ele descia para fazer algo.Seu comportamento
era totalmente diferente dos demais, sua voz, gestos etc.Depois de uma rápida conversa entre os lideres locais chegaram à conclusão que o santo enlouquecera. ..
E decidiram mandar uma comissão de sábios locais para entrevistá-lo.
Depois de uma rápida conversação com o santo a comissão concluiu que ele estava, realmente, louco. E lhecomunicaram francamente que, por estar insano, o levariam à cidade para curá-lo.Ao que o santo lhes contou o aviso que havia recebido do anjo.
Ao ouvir aquilo os sábios da comissão se entreolharam e, sem muita conversa, agarraram o santo e começaram a arrastá-lo para uma clinica. Sentindo que passaria maus momentos no hospício o santo pediu um tempo para beber um pouco dagua numa fonte bem perto de onde estavam.
E logo ficou bom...
E até hoje esta fonte é conhecida por ter uma água que cura loucos.
Tudo isto me veio ao ver na televisão o laudo medico sobre “chapinha”, adolescente que liderou o massacre do casal de adolescentes em SP.
O laudo ““técnico”chegou à conclusão que ele “não sofre das faculdades mentais”! E, portanto não pode ser internado e será solto por ser menor no momento em que cometeu o crime! Quem é mais maluco!? O assassino ou os técnicos? Como pode ser considerado são alguém que estupra, tortura por vários dias seguidos uma jovem? Que testes são esses?Quem são esses técnicos senão doentes mentais também, incapazes de ver que nenhuma pessoa sã cometeria tal atrocidade?
Na realidade todos os assassinos são doentes mentais e como tal deveriam ser tratados numa clinica e não nas prisões, onde são ““vigiados”por outros sádicos. Tudo isto é um reflexo de uma cultura doentia e antivida que enlouquece as crianças inocentes com uma “educação” repressiva, sádica.
Três homens, famintos, sedentos, cansados e sujos, chegam a um vilarejo, bem no alto de uma montanha,carregando um pesado barco.
Logo alguns habitantes os cercaram surpresos.
- porque vocês estão carregando este barco se aqui em cima não há rios nem lagos.O rio mais próximo fica a quilômetros daqui, bem lá em baixo.
- pois foi este rio que nos obrigou a usar este barco. Ele nos ajudou a cruzá-lo e, devido a isto,
carregamo-lopor onde vamos, por gratidão.
Esta parábola, corrente entre os caminhantes espirituais, serve para denunciar a idiotice de alguns que, apósterem praticado métodos úteis, não os abandonam mais...
Em torno desta simples historinha circulam muitas interpretações. ..
Uma delas diz que não é preciso nenhum barco, pois o rio não existe, é uma simples criação da mente, ou seja, não se precisa de técnicas nem métodos na caminhada.
Esta é uma questão relevante e se necessita cuidado ao abordá-la.
Dizer simplesmente que o rio não existe é tão gratuito como afirmar que existe.
Tem-se que ir um pouco mais fundo na questão, compreendendo que o rio é uma metáfora.
O que é uma metáfora? No di |