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Postado por Prashanto em 30/07/2008

Modelo espectral da consciência de Ken Wilber

 A cartografia da consciência de Ken Wilber contém, tal como a de Grof, três níveis básicos e interativos da consciência, constituídos por diversos subníveis ou “faixas”, que em seu conjunto ele denomina o espectro da consciência, e que se inicia na fragmentação da Consciência Absoluta, a Consciência Cósmica das tradições espirituais  :
  1. Nível da Mente – trata-se da consciência universal, origem do espaço, tempo, matéria, energia, vida e consciência. Nas tradições espirituais é conhecida como Deus, Yavé, Tao, Brahman, consciência cósmica, Allah, entre outros nomes. É a base intemporal, holográfica e não-local de todos os fenômenos temporais, inclusive nossas mentes individuais. Por ser a origem de todas as coisas, este é o fundamento e o primeiro nível da consciência pessoal. Neste nível, pessoas que atingiram o despertar, se identificam com o todo e entram em comunhão com a energia básica do universo.
  2. Nível existencial – Trata-se de um movimento da mente cósmica rumo à diversificação, onde ela assume uma multiplicidade ilusória de formas, entre as quais a nossa consciência individual. Neste nível, a consciência cósmica dá lugar a divisões e dualidades que não são reais, mas apenas aparentes. Desta forma nos percebemos como uma consciência individual, separada da fonte, tal como uma onda que se sobressai no mar. Por meio desta diversificação, que percebemos como fragmentação, nos identificamos com  nosso organismo, criando uma identidade pessoal, gerando o nível existencial, e nele um  homem desindentificado com o cosmos ( Pierre Weil denomina este fenômeno de fantasia da separatividade e neurose do paraíso perdido ).
  3. Nível do Ego – A fragmentação continua, a ponto das pessoas sequer se identificarem com todo seu organismo. Deixamos o corpo de lado e passamos a nos identificar somente com nossa mente. Criamos uma oposição mente/ corpo. Não dizemos “eu sou um corpo”, mas “eu tenho um corpo”. E a esse “Eu” que “tem” um corpo, chamamos de ego. É o nascimento da oposição psique versus soma.

Wilber de forma brilhante, resume sua teoria da evolução do espectro da consciência da seguinte forma, à pg 153 de O Espectro da Consciência:

“De maneira simplista podemos encarar tudo isso assim: A energia mobilizada no Nível da Mente é pura, sem forma ( isto é, vazia), atemporal, infinita, mas, quando se ‘eleva’ através dos níveis do espectro, começa a desintegrar-se, assumindo imagens e formas dualísticas. Consequentemente, cada nível se caracteriza pela natureza da desintegração dualística que nele ocorre. Assim sendo, no Nível Existencial, a energia desintegrou-se e fragmentou-se em energia do “eu” versus energia ambiental; na Faixa biossocial, a energia do eu começa a tomar forma, recolhendo os adornos e coloridos daquele nível; ao passo que no Nível do Ego ela se desintegrou ainda mais em energia corpórea versus energia psíquica. O Nível da Sombra representa simplesmente uma continuação da desintegração, onde a própria energia psíquica se cinde e fragmenta”

Psicologia e Psicoterapia Transpessoal:  Novo Paradigma  Integrador

“Embora a maior parte destes processos represente novos princípios no arsenal terapêutico ocidental, na realidade eles são antigos; desde tempos imemoriais, eles tem tido um papel importante nas práticas xamânicas, em rituais de cura e em ritos de passagem. Eles estão sendo agora, redescobertos e reformulados em termos científicos modernos.”

Stanislav Grof, A Aventura da Autodescoberta, pag. 20

 

Um das grandes contribuições da psicologia transpessoal foi fornecer um arcabouço conceitual e experimental que permite resolver os conflitos e diferenças existentes entre as diversas escolas de psicologia e psicoterapia, unificando-as num modelo coerente e complementar, integrando-as também às grandes tradições espirituais da humanidade. Desta ampla integração é possível desenvolver um novo paradigma, uma nova perspectiva do homem e da natureza e de suas interrelações, de caráter eminentemente não materialista que implica numa revisão drástica de todas as nossas concepções filosóficas e médico-psicológicas. Para tal é necessário o desenvolvimento de um novo modelo da interação cérebro/ consciência/universo tal como o que apresentamos no apêndice 1 deste livro. Devido à importância do tema em questão, pedimos licença ao leitor para citar integralmente as afimações já clássicas de Grof e Wilber sobre o assunto.  
Segundo Grof ( in Capra, Sabedoria Incomum, pag. 81), “grande parte da confusão existente na psicoterapia contemporânea provém do fato de cada pesquisador ter concentrado a atenção basicamente num determinado nível do inconsciente e depois ter tentado generalizar as próprias descobertas para a mente humana em sua totalidade. Todos os sistemas envolvidos talvez representem descrições mais ou menos precisas do aspecto ou do nível do inconsciente que estão tentando descrever. O que precisamos agora é de uma psicologia bootstrap ( autoconsistente) que integre os diversos sistemas numa coleção de mapas capazes de cobrir toda a gama da consciência humana.”

Ken Wilber em sua perspectiva reuniu as abordagens psicológicas e espirituais existentes, correlacionando-as num quadro de referência coerente que de acordo com Grof converge em muitos pontos com sua cartografia do inconsciente.
De acordo com Wilber, (O Especto da Consciência,  pags. 11 e 18), “A consciência é pluridimensional ou aparentemente composta por muitos níveis. Cada escola importante de psicologia, psicoterapia e religião se dirige a um nível diferente. Estas diversas escolas , portanto, não são contraditórias, mas complementares, sendo cada abordagem mais ou menos correta e válida quando se dirige ao próprio nível. Desta maneira , pode efetuar-se uma verdadeira síntese das principais abordagens da consciência – uma síntese, não um ecletismo, que valoriza igualmente os modos de ver de Freud, Jung, Maslow, May, Berne, e outros eminentes psicólogos, assim como o dos grandes sábios espirituais, de Buda a Krishnamurti [...] Em outras palavras, começará a emergir do nosso estudo do Espectro da Consciência não só uma síntese de enfoques orientais e ocidentais da psicologia e da psicoterapia, mas também uma síntese e integração dos vários enfoques ocidentais principais da psicologia e da psicoterapia...Digamos apenas que as várias diferentes escolas de psicologia ocidental, como a freudiana, a existencial e a junguiana estão se dirigindo também, no todo, a vários níveis diferentes do Espectro da Consciência, de modo que podem ser igualmente integradas numa abragente psicologia do espectro. Afirmo, com efeito, que a principal razão da existência no ocidente de quatro ou cinco escolas principais, porém diferentes, de psicologia e psicoterapia, é que cada uma delas focalizou sua atenção numa faixa ou nível principal do Espectro. Não são, digamos assim, quatro escolas diferentes que formam quatro teorias diferentes a respeito de um nível da consciência, mas quatro escolas diferentes cada uma das quais se dirigindo predominantemente a um nível diferente do Espectro ( por exemplo, os níveis da Sombra, do Ego, o Biossocial e o Existencial). Essas escolas distintas, por conseguinte, mantém uma relação complementar entre si, e não, como geralmente se supõe, uma relação antagônica ou contraditória.”

dr. Francisco Di Biase

 

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